A noite desce
compondo lembranças
dos afazeres
a poesia quer o mundo
Imagem: Leda Lucas


ramo folhas pétalas
sobrantes
Angélica
boca-de-leão
dália
gérbera:
gira o Sol
Folha de rosa
vermelha
santa Teresinha
:minúcias do dia

… o prateado da pele d’água confundiu-me tanto! Distante a lembrança vaga de seus olhos cor do rio; um brilho que não recordo se seu ou do céu.
Um voo tranquilo por algum tempo.
Um colibri equilibrou-se no centro do aguapé quase azul. Minúsculos peixes ao redor. Uma folha desprendeu-se do galho à beira, depois dançou, balançou forte; em seguida, entrou no redemoinho, aquietou-se, e seguiu o curso.
Uma borboleta azul acompanhou-nos longo tempo. Um cheiro de mel, intenso, trouxe lembranças novas e antigas.
Leda
Era ao redor da fogueira nos dias dos santos do mês de junho (Antonio, João, Pedro e Paulo). Lá de longe, descendo o morro, vinham vindo todos eles. Uns na frente, outros juntinhos no centro do grupo; um cachorro na frente de todos. E vinham descendo; as mulheres balançavam a saia rodada; a avó, passos curtos, presos pela saia um pouco menos, preta.
No rosto, a alegria rosada do pó-de-arroz batido à almofada rosa e do rouge com cheiro a guardado muito, pois faltava ocasião para abrir o potinho com estampa de moça na tampa. Mas o rosto. O rosto era sempre vermelho de sol ou pudor.
Vinham hoje para a fogueira na casa de alguém a quem por alguma razão estavam ligados e saíram de casa quando o sol entrava para o amanhã. Tinha iluminado tanto as dálias, de todas as cores, e as rosinhas de santa Terezinha!!! A cerca de bambu ganhou cor de ouro na tarde do santo. E nos campos, ao longo do caminho, as ervas-de-são-joão douravam todo o pasto. Era um zum-zum permanente o voo das abelhas europeias a colher o néctar do futuro mel.
Agora já se ouvia as vozes lá da casa, e avistava-se o ir e vir das mulheres envolvidas com as quitandas: biscoito de polvilho, cubu, rosquinha na forma de serpentes – S – sabendo-se celestes.
A água já fervia na trempe há horas para o quentão a animar o pagode ao som de sanfona, viola, reco-reco, cantos; às vezes um cavalo punha dentro da coberta a cabeça e cheirava o ar quente de corpos e som.
O bambu para o enfeite dos portais quedava-se folhas murchas dado o calor do dia. Mas se refariam à noite, quem sabe, sob a lua.
As crianças corriam ao redor da fogueira até ficarem zonzas de beleza e novidade. Os moços faziam mesuras de oferendas. Os adultos contariam causos, e, mostravam valentia passando descalços sobre a brasa da fogueira ainda acesa. Os velhos distribuiriam salvação ou trariam lágrimas à face de saudade de “meus tempos”.
Suas roupas eram a melhor que tinham para a festa do São João. E dançavam a quadrilha, todos, de mãos dadas no centro do mundo.
Leda
A chuva no dia claro
sertão esverdeou inteiro
na copa do buritizeiro fogo-apagou
pia seu canto e nos cantos
da cidade arranjos de flor e cabelo
A moça lábios vermelhos
a mãe amara severa
entreolha ramo e gamo
no ar festivo da tarde
O pai esbravejou roncou
o corpo magro tostado
do sol da lida
A festa foi tanta e
a tonta moça rodou
saia e roda
deram a ela o tom.
Leda
Pretendo deixar neste espaço pensamentos e reflexões sobre os acontecimentos do dia a dia. Para isto, escreverei poemas (meus e de poetas que amo), comentários sobre textos literários ou não, fotografia, imagens de esculturas, eventos na cidade, comentários sobre filmes e exposições, vídeos, etc., que me tenham perguntado à alma, aos sonhos...