segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
A noite sendo
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Esta senhora e o café da tarde
"José Cemí dialoga com sua avó:
–Vovó, cada dia sinto que mamãe vai se parecendo mais com a senhora. As duas têm o que eu chamaria de um mesmo ritmo interpretado da natureza. Nos últimos tempos, a maioria das pessoas me dão a impressão de que estão encerradas, sem saída. Mas vocês duas parecem ditadas, como se continuassem umas letras que lhes caem nos ouvidos. É só ouvir, seguir um som... Não têm interrupções, quando falam não parecem ficar buscando as palavras. Parecem seguir um ponto, que é o que esclarece tudo. É como se obedecessem, como se tivessem feito uma promessa para que a quantidade de luz não diminua no mundo, todos sabem que vocês fizeram sacrifício, que renunciaram a extensas regiões, diria que até à própria vida, se uma vida maravilhosa não aparecesse em vocês, numa fortuna tal que nós outros não sabemos nem para que existimos, nem como passamos nossos dias, pois só me parece que nos desprendemos da alta esfera de que falam os místicos sem ter encontrado ainda a ilha onde os cervatos e os sentidos saltam.
–Mas, meu querido neto Cemí, tu observas tudo isso em tua mãe e em mim porque o teu próprio é captar esse ritmo de crescimento para a natureza. Uma lentidão pouco frequente, a lentidão da natureza, diante da qual tu colocas uma lentidão de observação que é também a natureza. Graças a Deus, essa lentidão, para levar a observação a uma extensão fabulosa, é acompanhada por uma memória hiperbólica. Entre muitos gestos, muitas palavras, muitos sons, depois que os tiveres observado entre o sono e a vigília, saber qual vai acompanhar a memória secularmente. A visita de nossas impressões é de uma rapidez intangível, mas teu dom de observação espera como num teatro onde tem que passar, reaparecer, deixar-se acariciar ou mostrar-se esquivas essas impressões que depois são leves como larvas, mas então tua memória lhe dá uma substância tal como o limo dos começos, tal como uma pedra que recolhesse da sombra do peixe. Falas do ritmo do crescimento da natureza, mas é preciso muita humildade para poder observá-lo, segui-lo e reverenciá-lo. Nisto também observo que tu és da nossa família, a maioria das pessoas interrompem, favorecem o vazio, fazem exclamações, exigências desastradas ou declamam árias fantasmais, mas tu observas esse ritmo que faz da realização, da realização do que desconhecemos, mas que, como tu dizes, nos foi ditado, o signo principal do nosso viver. Fomos ditados, quer dizer, éramos necessários para que a realização de uma voz superior chegasse à margem, sentindo-se em terreno seguro. A rítmica interpretação da voz superior, sem quase intervenção da vontade, quer dizer, uma vontade que já vinha envolvida num destino superior, fazia-nos desfrutar de um impulso que era ao mesmo tempo um esclarecimento..” (p. 493-494).
Julio Cortázar: Volta ao Dia em 80 Mundos (Tomo II). Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht. Editora Civilização Brasileira, 2008, p. 67 e 68.
José Lezama Lima: Paradiso (s/i). p. 493 e 494.
Fiquei muito feliz por ter encontrado este fragmento do romance Paradiso de Lezama Lima, no livro do Cortázar para a minha foto.
Imagem: Leda Lucas
Sinfonia plena

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Dentro de mim
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Voo da férrea libélula
domingo, 31 de janeiro de 2010
Canto futuro
rastro da luz
além do encoberto
rio e voz no charco
Imagem: Leda Lucas
Poema (de abertura): Leda Lucas
Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada
de "O Guardador de Águas" – Manoel de Barros
I
Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.(...)
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Pouso de andorinhas
Hai-kai da palavra andorinha
A palavra andorinha
Freme devagarinho
E some em silêncio...
In: Mario Quintana - O Livro de Haicais
Organização: Ronald Polito
Ilustrações: Roberto Negreiros
Posfácio: Paulo Franchetti
Editora: Globo
Os poemas de Mario Quintana "– haicais ou não – compartilham com o pequeno poema japonês algumas características importantes: o gosto pelo humilde, pelo simples, pelo despojamento da vida pobre e solitária, a preferência pela linguagem quotidiana, a recusa à exibição técnica ou à busca do efeito fácil." Em palavras de Paulo Franchetti no posfácio do livro de Mario Quintana.
Imagem: Leda Lucas
