segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A noite sendo


Era o dia de aniversário
de um de meus
amados irmãos

Comemoramos seus 50
tempos de anos
e anos de ventura
de leveza
com toda alegria

Feliz aniversário, meu irmão.

Também, nesta véspera, esperávamos os 25 anos de uma vida com sua companheira
Celinha Garrido.

Fomos e somos felizes por tudo isto.

Texto: Leda Lucas
Vídeo: Leda Lucas

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Esta senhora e o café da tarde

Há tempos fiz esta imagem, aqui no bairro onde moro. E desde o primeiro momento vieram recordações felizes dos dias de café da tarde com pão fresquinho e conversas... Guardei-a.
Nestes dias, estou lendo A Volta ao Dia em 80 Mundos - Tomo II - Civilização Brasileira, de Júlio Cortázar e, grata surpresa, encontrei um fragmento do romance Paradiso, de José Lezama Lima que traduziu em palavras meus sentimentos mais profundos.
É um diálogo entre um neto (a personagem Cemí) e sua avó:


"José Cemí dialoga com sua avó:

–Vovó, cada dia sinto que mamãe vai se parecendo mais com a senhora. As duas têm o que eu chamaria de um mesmo ritmo interpretado da natureza. Nos últimos tempos, a maioria das pessoas me dão a impressão de que estão encerradas, sem saída. Mas vocês duas parecem ditadas, como se continuassem umas letras que lhes caem nos ouvidos. É só ouvir, seguir um som... Não têm interrupções, quando falam não parecem ficar buscando as palavras. Parecem seguir um ponto, que é o que esclarece tudo. É como se obedecessem, como se tivessem feito uma promessa para que a quantidade de luz não diminua no mundo, todos sabem que vocês fizeram sacrifício, que renunciaram a extensas regiões, diria que até à própria vida, se uma vida maravilhosa não aparecesse em vocês, numa fortuna tal que nós outros não sabemos nem para que existimos, nem como passamos nossos dias, pois só me parece que nos desprendemos da alta esfera de que falam os místicos sem ter encontrado ainda a ilha onde os cervatos e os sentidos saltam.

–Mas, meu querido neto Cemí, tu observas tudo isso em tua mãe e em mim porque o teu próprio é captar esse ritmo de crescimento para a natureza. Uma lentidão pouco frequente, a lentidão da natureza, diante da qual tu colocas uma lentidão de observação que é também a natureza. Graças a Deus, essa lentidão, para levar a observação a uma extensão fabulosa, é acompanhada por uma memória hiperbólica. Entre muitos gestos, muitas palavras, muitos sons, depois que os tiveres observado entre o sono e a vigília, saber qual vai acompanhar a memória secularmente. A visita de nossas impressões é de uma rapidez intangível, mas teu dom de observação espera como num teatro onde tem que passar, reaparecer, deixar-se acariciar ou mostrar-se esquivas essas impressões que depois são leves como larvas, mas então tua memória lhe dá uma substância tal como o limo dos começos, tal como uma pedra que recolhesse da sombra do peixe. Falas do ritmo do crescimento da natureza, mas é preciso muita humildade para poder observá-lo, segui-lo e reverenciá-lo. Nisto também observo que tu és da nossa família, a maioria das pessoas interrompem, favorecem o vazio, fazem exclamações, exigências desastradas ou declamam árias fantasmais, mas tu observas esse ritmo que faz da realização, da realização do que desconhecemos, mas que, como tu dizes, nos foi ditado, o signo principal do nosso viver. Fomos ditados, quer dizer, éramos necessários para que a realização de uma voz superior chegasse à margem, sentindo-se em terreno seguro. A rítmica interpretação da voz superior, sem quase intervenção da vontade, quer dizer, uma vontade que já vinha envolvida num destino superior, fazia-nos desfrutar de um impulso que era ao mesmo tempo um esclarecimento..” (p. 493-494).


Julio Cortázar: Volta ao Dia em 80 Mundos (Tomo II). Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht. Editora Civilização Brasileira, 2008, p. 67 e 68.

José Lezama Lima: Paradiso (s/i). p. 493 e 494.


Fiquei muito feliz por ter encontrado este fragmento do romance Paradiso de Lezama Lima, no livro do Cortázar para a minha foto.


Imagem: Leda Lucas


Sinfonia plena



palavras trôpegas
tropicavam no que ardia
– já antigo

nas rugas do concreto
a luz prenhou a flor
da bauínia despregada

letras de ouro
plenas de sinfonia
noturno trinado

Imagem: Leda Lucas
Poema: Leda Lucas

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Dentro de mim




o vento quase sempre
move o sol anima
a sombra acolhe


atrás do muro
o escuro
caos vigia


Imagem: Leda Lucas
Poema: Leda Lucas



terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Voo da férrea libélula


Nos quintais de casa cresciam anêmonas azuis e beijinhos rosa que criança ofertava ao Menino Deus.
A gente cresceu, dispôs de armaduras e enjeitou os cantos dos encantamentos para sair pela porta dos fundos de um tempo de descartáveis recordações: vestes da civilização.
Agora, nas andanças pelo bairro da cidade, pouco a pouco vou cosendo a alma esquecida em baús trancados a chaves de marzipan – alvas e sem-par –, conforme o caminho ao dentro azul.

Imagem: Leda Lucas
Texto: Leda Lucas

domingo, 31 de janeiro de 2010

Canto futuro



rastro da luz

além do encoberto

rio e voz no charco



Imagem: Leda Lucas

Poema (de abertura): Leda Lucas






Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada


de "O Guardador de Águas" – Manoel de Barros


I


Não tenho bens de acontecimentos.

O que não sei fazer desconto nas palavras.

Entesouro frases. Por exemplo:

- Imagens são palavras que nos faltaram.

- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.

- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.

Ai frases de pensar!

Pensar é uma pedreira. Estou sendo.

Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)

Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.

Outras de palavras.

Poetas e tontos se compõem com palavras.(...)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Pouso de andorinhas


Hai-kai da palavra andorinha



A palavra andorinha


Freme devagarinho


E some em silêncio...



In: Mario Quintana - O Livro de Haicais

Organização: Ronald Polito

Ilustrações: Roberto Negreiros

Posfácio: Paulo Franchetti

Editora: Globo


Os poemas de Mario Quintana "– haicais ou não – compartilham com o pequeno poema japonês algumas características importantes: o gosto pelo humilde, pelo simples, pelo despojamento da vida pobre e solitária, a preferência pela linguagem quotidiana, a recusa à exibição técnica ou à busca do efeito fácil." Em palavras de Paulo Franchetti no posfácio do livro de Mario Quintana.


Imagem: Leda Lucas