segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Garrafa no mar

Há sempre um copo de mar para um homem navegar (Jorge de Lima)

"Cada poema é uma garrafa de náufrago jogada às águas... Quem a encontra, salva-se a si mesmo.
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Poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz.
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A poesia é uma loucura lúcida.
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O poema é uma pedra no abismo...
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Todo poema é uma aproximação.
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Delícia de fechar os olhos, por um instante e assim ficar, sozinho, fabricando escuro... sabendo que existe luz!
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Cada gota contém a luz do mundo.
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Essas coisas que parece não terem beleza nenhuma – é simplesmente porque não houve nunca quem lhes desse ao menos um segundo olhar!
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Descobrir continentes é tão fácil como esbarrar num elefante./ Poeta é o que encontra uma moedinha perdida."

In: Mário Quintana. Para viver com poesia. Seleção e organização de Márcio Vassallo. São Paulo, Globo, 1ª reimpressão, 2007.

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Texto: Mário Quintana (digitado por Leda Lucas)
Vídeo: Leda Lucas
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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A casa

"(...) a imensa casa cósmica existe potencialmente em todo sonho de casa. De seu centro irradiam-se os ventos e as gaivotas saem pelas janelas. Uma casa tão dinâmica permite ao poeta habitar o universo. Ou, noutras palavras, o universo vem habitar sua casa.
Às vezes, num repouso, o poeta volta ao centro de sua morada...
... Tudo respira de novo
A toalha é branca. (Gaston Bachelard)

Esta é a casa de minha avó materna. Aí vivi os primeiros momentos de pertencimento. Aqueles em que minha avó já cansada e de paladar exigente solicitava à neta e afilhada (eu) que torrasse no tacho de cobre, num fogão a lenha muito alto para os meus 8 ou 9 anos, o fubá – aquele mais fino, que no cocho do moinho, ficava encostado à parede de madeira, amarelinho, tenro... Então, deste esforço contente de ser pessoa, fazer a farinha de milho torrada para tomar com leite e uma pitada de sal ou com café, ou, então já como minha mãe fazia: o angu-doce com nacos de queijo minas (sempre achei que eram pequenos e poucos) curado que comíamos com café, frequentes vezes pela manhã e, também, à noite quando não havia bolo de fubá assado na panela de ferro coberta com uma fôrma de lata ou até mesmo a tampa de alguma panela de alumínio emborcada, sobre a qual se punha as brasas para assar a parte de cima.
Nesta casa de minha avó, aprendi que meu avô, que não alcancei em vida, gostava de ouvir música no rádio, altas horas da noite. Principalmente, instrumental – e que eu entendi, não sei por que clássica. Acho que vem daí o meu gosto singular por MÚSICA CLÁSSICA e, também, as valsinhas brasileiras em vozes que enchiam todo o imenso salão. A sala era – é ainda – imensa, com janelas e portas altíssimas.
Em minha infância, nas janelas havia arandelas de ferro retorcido e vidros coloridos nos portais e umbrais. A luz elétrica iluminava as noites do ser tão início.
Contavam-me que minha avó, renitente, lá do quarto, longe da sala, chamava:
– Arquilino, vem deitar! Desliga este rádio.
E ele, então, esquecia seus dedos longos no botão de som, diminuía o volume; encostava sua cabeça de falcão à mesa e sonhava? Depois, ficava rolando o seletor ao longo do dial e ia e voltava...
As cadeiras com assento de esteirinhas de vime fino, e estrutura de madeira preta, muitas, espalhadas pelo salão dentro das noites.
Lá fora, o mundo.
Imagem: Leda Lucas
Texto: Leda Lucas
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Conversa (a)fiada

Diante uma plateia bicuda, literalmente, um homem conta ao lobo marinho que a comida acabou e que se ele descer ao mar e, depois, subir novamente até a calçada, quem sabe se ele não ganha mais um pouquinho de comida.
A comida eram os restos atirados ao chão do Mercado de Peixes em Antofagasta.
...
E o lobo marinho acreditava na promessa dos restos de cabeças, ovas, peles e tripas feita pelo (ainda?) homem.
Eu, como a vida, seguia.

Imagem: Leda Lucas
Texto: Leda Lucas

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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Devaneio e Cosmos

Eu habitava um provérbio tão vasto que era preciso um universo para enchê-lo.
Robert Sabatier. Dédicace d'ún navire, p. 47

"Quando um sonhador de devaneios afastou todas as 'preocupações' que atravancavam a vida cotidiana, quando se apartou da inquietação que lhe advém da inquietação alheia, quando é realmente o autor da sua solidão, quando, enfim, pode contemplar, sem contar as horas, um belo aspecto do universo, sente, esse sonhador, um ser que se abre nele."
Bachelard, Gaston. Devaneio e Cosmos/ Tradução: Antonio Pádua Danesi. In: A Poética do Devaneio. Martins Fontes, São Paulo, 2006, p. 165.

Imagem: Leda Lucas
Texto: Gaston Bachelard, em A Poética do Devaneio.

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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Imagens Eletivas


Philippines - Democracy is...

accessible and quality education for all. It is education as a right.


No reflexo da poça d'água, como num quadro de Escher, a imagem de um pássaro.
Um menino carrega
asas na mão.

Imagem publicada no site do Democracy Photo Challenge.

http://www.democracyphotochallenge.america.gov/photo.html

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Me nina, mar!

VIII

“Para dar um exemplo concreto de uma psicologia do universo, seguiremos um relato em que o cenário de um lago de montanha cria de certa forma a sua personagem, em que a água profunda e forte, provocada pelo nado, transforma um ser humano em criatura da água – transforma uma mulher em Melusina. Nosso comentário terá por centro um livro de Jacques Audiberti, Carnage.

Só ocasionalmente Audiberti nos oferece imagens de reflexo. Seu devaneio é atraído pela água como se sua imaginação tivesse poderes de hidromancia, seduções de hidrofilia. O sonhador sonha viver na espessura da água. Viverá das imagens do tato. A imaginação nos dará, não mais um além das imagens contempladas, mas um além das alegrias musculares, um além dos poderes do nado. Ao ler as páginas que Jacques Audiberti escreveu num capítulo que traz o título de 'Le lac' (O lago), poderíamos acreditar de início que elas traduzem experiências positivas. Mas cada sensação anotada é ampliada numa imagem. Entramos na região de uma poética do sensível. E, se existe experiência, é de uma verdadeira experiência da imaginação que se deveria falar. A realidade nua amorteceria essa experiência de uma poética do sensível. Portanto, não é preciso ler tais proezas na vida da água referindo-se às nossas experiências, às nossas lembranças; deve-se lê-las imaginativamente, participando da poética das tonalidades musculares. Notaremos de passagem que esses ornamentos psicológicos é que infundem vida estética às meras percepções. Apresentemos primeiro a heroína do mundo das águas.

Audiberti sonha diretamente as forças da natureza. Não tem necessidade de lendas e contos para criar uma Melusina. Enquanto vive em terra, sua Melusina é uma filha da aldeia. Fala e vive como as pessoas da aldeia. Mas o lago a torna só, e tão logo ela se vê sozinha ao pé do lago este se converte num universo. A filha da aldeia entra na água verde, numa água moralmente verde, irmã da substância íntima de Melusina. E ei-la que mergulha: uma espuma se ergue de um abismo, esbranquiçando com mil flores de pilriteiro a intimidade do mundo líquido. A nadadora está agora debaixo das águas: 'Nada mais, doravante, existia – apenas um êxtase de rumor mais azul que tudo no mundo...'

'Um êxtase de rumor mais azul que tudo no mundo': a que registro sensível pertence esta imagem? O psicólogo que decida a respeito. Mas o sonhador de palavras está encantado, pois o devaneio das águas é aqui um devaneio falado. A poética da palavra falada constitui a poética dominante. É necessário dizer e redizer para ouvir tudo o que o poeta diz. Para o ouvido que quer ouvir a voz das águas do mar, que concha não é a palavra rumor!

O escritor continua...

Acabei de ler um maravilhoso livro de Gaston Bachelard. No capítulo VIII – o final – o autor comenta sobre um conto de Jacques Audiberti cuja história tem imagens lindas. Ao lê-lo e relê-lo tive a ideia de fazer a digitação de fragmentos do conto de Jacques Audiberti, que é simplesmente encantador e fazedor de amar demais as palavras, de querê-las próximo do coração. Esta história está contada no capítulo VIII, o último do livro A Poética do Devaneio.

Aguarde a continuação da história.

Imagem: Leda Lucas

Texto: Gaston Bachelard. In: A Poética do Devaneio. Tradução: Antonio de Pádua Danesi. São Paulo, Martins Fontes, 2006, ps. 194 e 195.

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domingo, 11 de julho de 2010

Companheiros de Devaneio

Na casa fechada
ele fixa um objeto no entardecer
e joga o jogo de existir
(Jean Follain, Territoires, p. 70 – Citado por Gaston Bachelard)

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A menor fenda
de uma vidraça ou de um vaso
pode trazer a ventura de uma grande lembrança
os objetos nus
mostram sua fina aresta
cintilam de repente
ao sol
mas perdidos na noite
se fartam assim muitas horas
longas
ou breves
(Id., ibid., p.15)

Imagem: Leda Lucas
Poemas: Jean Follain

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