quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A Marca dos Homens

Refazer a história dos dias
dos homens de antes
sem ouro, nem glória

Só. E viver o tempo
da noite e do dia.

Imagem: Leda Lucas
Texto: Leda Lucas
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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Madredeus - Alfama (HQ)



Letra: Alfama

Lyrics by Pedro Ayres Magalhães
Music by Pedro Ayres Magalhães & Rodrigo Leão

Agora,
que lembro,
As horas ao longo do tempo;
Desejo,
Voltar,
Voltar a ti,
desejo-te encontrar;
Esquecida,
em cada dia que passa,
nunca mais revi a graça
dos teus olhos
que eu amei.
Má sorte,
foi amor que não retive,
e se calhar distrai-me...
- Qualquer coisa que encontrei.

Por amor à língua, à música: poesia.
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À Carlos Drummond de Andrade


O Elefante

Carlos Drummond de Andrade

Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
e é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
e as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.

(In: A Rosa do Povo)

Os poemas de que gosto são tantos e, devido a isto, escolhi este.

Viva para sempre todo dia a Poesia. Obrigada Carlos Drummond de Andrade!
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domingo, 30 de outubro de 2011

São Francisco: rioceano

"Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens."
– entrevista de João Guimarães Rosa a Giinter Lorenz, em janeiro de 1965, citado em "Uma cantiga de se fechar os olhos --": mito e música em Guimarães Rosa – Página 74, de Gabriela Reinaldo - Publicado por Annablume, 2005.

Imagem: Leda Lucas, em Penedo, no estado de Alagoas.

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Imagem e Palavra - Constança Lucas: Uma linha pelo mundo

Imagem e Palavra - Constança Lucas: Uma linha pelo mundo: Um projeto de Alejandro Rosas http://www.alejandro-rosas.es/LINEAPORELMUNDO/LINEAS2.html "As linhas dos mapas nos separam, são linhas q...

sábado, 29 de outubro de 2011

No meio do caminho


"De distâncias levadas a cabo, de ressentimentos infiéis,
de hereditárias esperanças misturadas com sombra,
de assistências dilaceradamente doces
e dias de veio transparente e estátuta floral,
o que subsiste no meu vocabulário escasso, no meu frágil produto?"
(Pablo Neruda, Diurno doído)

Imagem: Leda Lucas
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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Vestígios dos dias

"Me pergunto como pude sucumbir nesta vertigem que eu mesmo provocava e temia. Flutuava entre nuvens erráticas e falava sozinho diante do espelho com a vã ilusão de averiguar quem sou. Era tal meu desvario, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor."


(Trecho de Memória de Minhas Putas Tristes, p. 75.)
Gabriel García Marquéz
Imagem: Leda Lucas
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