quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Busca de ser


A Concha

I

“À concha corresponde um conceito tão claro, tão firme, tão rígido que não, podendo simplesmente desenhá-lo, o poeta, reduzido a falar dele, a princípio fica com um déficit de imagens. Em sua evasão para os valores sonhados, é interrompido pela realidade geométrica das formas. E as formas são tão numerosas, por vezes tão ovas que, a partir do exame positivo do mundo das conchas, a imaginação é vencida pela realidade. Aqui a natureza imagina e a natureza é sábia. Bastará folhear um álbum de amonites para reconhecer que, desde a era secundária, os moluscos construíam sua concha de acordo com as instruções da geometria transcendental. Os amonites faziam sua morada no eixo de uma espiral logarítmica. No belo livro de Monod-Herzen há uma explicação muito clara dessa construção das formas geométricas pela vida.

Naturalmente o poeta pode entender essa categoria estética de vida. O belo texto que Paul Valéry escreveu sob o título Les coquillages é iluminado de espírito geométrico. Para o poeta, 'um cristal, uma flor, uma concha destacam-se da desordem comum do conjunto das coisas sensíveis. São para nós objetos privilegiados, mais inteligíveis à vista, conquanto mais misteriosos para a reflexão que todos os outros que vemos indistintamente'. Parece que para o poeta, grande cartesiano, a concha é uma verdade da geometria animal bem solidificada, portanto 'clara e distinta'. O objeto construído é altamente inteligível. É a formação e não a forma, que permanece misteriosa. Mas, no plano de forma a tomar, que decisão vital na primeira escolha, que consiste em saber se a concha enrolará para a esquerda ou para a direita! Quanto já se disse sobre esse turbilhão inicial! De fato, a vida começa lançando-se para a frente do que girando sobre si mesma. Um impulso vital que gira, que maravilha, que maravilha insidiosa, que sutil imagem de vida! E quantos sonhos poderíamos ter sobre a concha canhota! Sobre uma concha que fugisse à rotação da espécie!

Paul Valéry detém-se longamente diante do ideal de um objeto modelado, de um objeto cinzelado que justificaria o seu valor de ser pela bela e sólida geometria da forma, pondo de lado a simples preocupação de proteger a matéria. A divisa do molusco seria então: é preciso viver para construir sua casa, e não construir sua casa para viver nela.

Tudo é dialética no ser que sai da concha.”

(BACHELARD, Gaston. In: A Poética do Espaço. Tradução: Antonio de Pádua Danesi.

São Paulo, Martins Fontes, 2003, 1ª ed., ps. 117 e 118.)

Imagem: Leda Lucas (A propósito de visita ao Museu Precolombino, em Santiago, Chile, na primavera de 2009.)

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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Anoitece


A noite chega iluminada sobre a cidade de Santiago. O Victor e eu acabávamos de chegar de Isla Negra, onde estivemos para ver o Oceano Pacífico do quintal da casa de Pablo Neruda.
Lá, vi o mar com os olhos do poeta e amei-o tanto. Até conheci o farol Panul, em San Antonio. Fui a El Tutoral para encontrar la hermana de senhor Humberto que mora aqui no Brasil. A vi, conheci sua casa e suas gentes. Visitei o seu Museu com tantos objetos interessantes. Numa vitrola havia um LP (!) da Maysa e nela podia-se ler: Não tocar...
As viagens foram incríveis.
Imagem: Leda Lucas
Texto: Leda Lucas
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Carla Caruso: Enfim...

"As coisas são
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas vão e vêm
Não em vão (Oswald de Andrade)"
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sábado, 4 de setembro de 2010

Em Antofagasta

DÁ-ME TUA MÃO


De Cecilia Meireles e Gabriela Mistral


Dá-me tua mão, e dançaremos;

dá-me tua mão e me amarás.

Como uma só flor nós seremos,

como uma flora, e nada mais.

O mesmo verso cantaremos,

no mesmo passo bailarás.

Como uma espiga ondularemos,

como uma espiga, e nada mais.

Chamas-te Rosa e eu Esperança;

Porém teu nome esquecerás,

Porque seremos uma dança

sobre a colina, e nada mais.


Extraídos de "GABRIELA MISTRAL & CECÍLIA MEIRELES"; Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras; Santiago de Chile: Academia Chilena de La Lengua, 2003.

Imagem: Victor Lucas

Poema: http://legalvarenga.blogspot.com/ - encaminhado por José Universo.

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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Viagens do mel à dor

XVIII

Os dias não se descartam nem se somam, são abelhas 


que arderam de doçura ou enfureceram 


o aguilhão: o certame continua, 


vão e vêm as viagens do mel à dor. 


Não, não se desfia a rede dos anos: não há rede. 


Não caem gota a gota de um rio: não há rio. 


O sonho não divide a vida em duas metades, 


nem a ação, nem o silêncio, nem a virtude: 


a vida foi como uma pedra, um só movimento, 


uma única fogueira que reverberou na folhagem, 


uma flecha, uma só, lenta ou ativa, um metal 


que subiu e desceu queimando-se em teus ossos.

Pablo Neruda in Ainda
Tradução: Olga Savary. José Olympio Editora –

Rio de Janeiro, 1978.


Imagem: Leda Lucas

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

Herança

Muitos são os legados que nos deixam.
No meu caso, tenho como herança a composição em formas e tintas expressada por minha mãe, da casa que morava em seu coração.
Tive de crescer, mudar de estado, adaptar-me a um outro modo de ser e compor-me. E minha mãe, também.
Veio ao mundo, viveu seus dias com os seus e, principalmente, nos contava da feliz amizade com seu irmão Chico. Das tantas travessuras de meninos do interior. Casou-se com o homem que tornou-se meu pai. Foram felizes e infelizes juntos até o último dia de vida de minha mãe.
Não apaga de minha memória uma das últimas falas que tive com ela:
– Seu pai viajou, e nem me desejou 'Boa sorte!'.
Mas ele nunca foi destas coisas. Nem nunca teve o hábito de saber de alguém indo para o médico... Hospital?! Porém, ele retornou de viagem e dormiu com a sua mulher a derradeira noite, do jeito que ele gostava. Ele nunca podia imaginar ser aquela noite incômoda devido ao desconforto de minha mãe pelas dores, a última da vida deles.
Tomaram juntos o café da manhã! Teve bolo, caseiro, e guardado no fundo do forno.
Vai dizer que viver não é ser sempre surpreendido.
Mas, um pouco antes da inesperada partida, minha mãe, em seu eterno buscar-se, espalhou tintas – algumas, inclusive minhas! – em telas que comprava com seu 'dinheirinho' de aposentada. E contou-se! Pintou sua morada.
Mesmo um pouco desgostosa, porque a casa que ela trazia no coração tinha tanta luz! O telhado não era assim caído! A parede não era assim torta... Nem eram aquelas as plantas que haviam na cerca do curral. O terreiro ficou muito limpo. Faltou a porteira.
O que faltou, minha mãe?! Veja:
A escada para o alpendre.
As portas do porão. Tenho certeza, que um bezerrinho, ao amanhecer, ainda chama por sua mãe debaixo do assoalho. Algumas galinhas, ainda fazem aí seus ninhos. Um galo canta na madrugada. Um cachorro dorme na soleira. Um gato deve passar rápido.
A escada para o terreiro da cozinha. Era maior. Por que dificultar o acesso a espaço tão-nosso amado?!
Sinto falta do forno a lenha, e o azedinho do biscoito de polvilho ainda quente, saboreio agora. O crepitar das brasas. As mesmas que fizeram explodir a lata de soda cáustica que queimou muito sua perna, quando ainda era bem jovem – e já havia providenciado minha chegada –, deixando tantas cicatrizes que pude observar em suas pernas brancas, e na testa. Tenho fascínio pelo fogo! E um medo...
O ora-pro-nóbis ficou atrás da casa, lá para as bandas da cozinha?
O pé de laranja serra d'água da vovó, que fim levou?!
O chuá-chuá da água na bica!
Mas.
Aí está o morro.
Aí estão as árvores de Paratudo!
Nunca vou me esquecer dos dias.

Imagem: Leda Lucas
Texto: Leda Lucas

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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Grafite

Para a festa de aniversário de 56 anos do Parque do Ibirapuera.
Com detalhes de carinho para com a toda verdura e presença de um montão de pássaros neste lugar onde os paulistanos podem se encontrar e se encantar.
Imagem: Leda Lucas
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