quinta-feira, 1 de abril de 2010
Canto atávico
... e tantas vezes, de cócoras e com a palha de milho na orelha e o fumo de corda e canivete entre os dedos das mãos; contava com uma alegria:
– Está quase afinado, meu compadre! Os bois são bons! Eu vou apertar mais um pouco e 'nóis vai ouvir o canto do danado'!
Isto já faz tanto tempo.
Mas, não é que estes dias deu de chegar um som em meus ouvidos que lembrou-me o querido tio João Moreira?!
Sua alegria na espera do canto saído do eixo apertado no giro das rodas do carro de bois, contagia minhas lembranças.
Texto: Leda Lucas
Vídeo: Leda Lucas
quarta-feira, 31 de março de 2010
Encontros
Apenas mais uma tarde de domingo? Talvez.
Um compromisso a mais? São tantos nos todos os dias; apenas mais um.
Mas hoje, já passados alguns dias depois daquela tarde, vejo-me a observar as imagens registradas e nelas tantos gestos.
As cores muitas.
Os semblantes vários.
Os semelhantes no esforço de se fazerem únicos.
A criança faz surgir o desejo de carícias maternas; o adolescente chega e aninha-se na confraternização, e eu penso:
– Como é que ele vê este acontecimento? Nem faz tanto tempo era o dia dele.
No entanto vem crescendo e tenho certeza, também sonha.
Os adultos acarinhando-se com o firme propósito de tornar os acontecimentos uma festa.
Até que, chegada a hora de voltar cada uma para seu canto, sob a chuva fina caindo do céu da cidade, aliam-se, protegem-se.
As companheiras de nossa maior viagem.
Imagem: Leda Lucas
Crônica: Leda Lucas
domingo, 28 de março de 2010
quinta-feira, 25 de março de 2010
CUIDADO DEGRAU
Quando criança, eu costumava pensar em uma escada enorme que me levava até o céu, e ela subia... Subia pelas montanhas de minha terra apoiada em nuvens leves; e diáfana.
Quando eu lá chegava, sentado confortavelmente numa poltrona branca guardando a entrada de um grande portal um ancião de barbas e cabelos muito brancos, com um sorriso na face, que achava que era São Pedro. Tinha um molho de chave na mão esquerda. Depois, encontrava-me com Deus, com um rosto severo, sereno. Anjos passeavam pelo jardim de algodão cor-de-rosa a tocar harpas; infinitas.
Cresci.
Trilhei alguns caminhos.
... Agora tudo é sólido; concreto.
... Agora tudo é sólido; concreto.
Mas a alma leve e transparente ainda busca alturas a fim de alcançar cores, formas, linhas, palavras.
Tudo expressão.
E eu subo, atenta e cuidadosa, cada um dos tantos degraus - um após o outro - a cada dia, e sempre levando comigo um livro, uma câmera fotográfica (digital).
Vai saber...
Acho que viver é esquisito e sinto saudades.
Azul da Infância
O olhar infantil procurava alturas
a ver o alto da escada invisível
apoiada nos tufos brancos
da nuvem alta
Queria pela escada
entrar no céu
ser recebida em caloroso
silêncio e bondade
Os degraus da escada
subiam subiam subiam
sumiam
E, então, o frio do pântano
do brejo de água de mina
na planta dos pés
assoalhava o devaneio
no azul da infância
Imagem: Leda Lucas
Textos: Leda Lucas
segunda-feira, 22 de março de 2010
Início de outono
Era um domingo, talvez especial.
A vida em casa transcorria segura, serena.
As gatas dormiam manhosamente o calor dos dias.
Meu filho sonava a casa com delícias de ouvir MÚSICA.
Meu companheiro segurava seu braço que doía no escorrer de seu sangue nas veias.
Eu, como sempre, perdida no tanto de sonhos e gostosuras de e por fazer ...
Juntou nuvem no céu de montão; a contar que dia 19 foi o dia da "enchente das goiabas", porém por aqui a chuva muita foi antes: janeiro, fevereiro...
O sol teve de se esconder atrás do chumbo das nuvens. As árvores debaixo da janela de casa nem balançou tanto. Mas um hora a água despencou do alto juntamente com o sol do outro lado do céu.
Corri para fechar a janela do quarto, mas ali na frente da rede de proteção da janela de meu quarto encontrava-se o final do arco-íris; e lá um tesouro?
Imagem: Leda Lucas
Texto: Leda Lucas
domingo, 21 de março de 2010
À Constança
Cuitelinho
Composição: Paulo Vanzolini / Antônio XandóCheguei na beira do porto
Onde as ondas se espáia
As garça dá meia volta
E senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia, ai, ai
Ai quando eu vim de minha terra
Despedi da parentaia
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes bataia, ai, ai
A tua saudade corta
Como aço de navaia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
Os óio se enche d`água
Que até a vista se atrapaia, ai, ai
...
E mais: Um artigo doce, musical, e pleno de nossas melhores lembranças das fundações do repertório de MPB, por Luis Nassif.
Pena Branca e Xavantinho
A primeira vez que ouvi Pena Branca e Xavantinho creio ter sido no programa “Vitrine” da TV Cultura de São Paulo. Vou lhe contar, poucas vezes na vida uma interpretação me pegou daquele jeito, de ficar suspenso no ar sem conseguir respirar, como a emoção da primeira namorada. Talvez algumas interpretações de Jacob, as guarânias de Luiz Vieira, canções de Caymmi, as primeiras músicas que ouvi de Chico, Gil e Caetano, sei lá, e obviamente Cascatinha e Inhana.
Era isso, a emoção era a mesma da primeira audição de Cascatinha e Inhana, quando tinha meus dez anos e descobri em velhos discos 78 na casa de meu tio Léo. Ficava horas ouvindo “Meu Primeiro Amor”, “Índia”, “Luar do Sertão”, com aquela composição de vozes estranhamente simétricas, com o Cascatinha e a Inhana cantando uma oitava acima.
Apesar de periodicamente ouvir o programa “Alvorada Sertaneja” na rádio Cultura, apresentado pelo Compadre Zé Tomé e pelo Compadre Mesquita (meu tio Léo, carioquíssimo), as músicas caipira e sertaneja não me impressionavam muito. Não digo os clássicos, “Linda Flor do Ipê”, “Festa Junina”, “Chuá Chuá”, as obras de Valdemar Henrique, Joubert de Carvalho, J. Cascata e Leonel Azedo, Sá Pereira, o imenso Luiz Peixoto, João Pernambuco e outros, além dos paulistas Raul Torres, Capitão Furtado e Inezita Barroso, mas aquela música mais tosca de dupla caipira mesmo.
Nos meus tempos de moleque, havia uma distinção nítida entre a música caipira autêntica e a sertaneja, de funda influência mexicana e paraguaia. Minha casa ficava em frente o largo do São Benedito, onde tinha a quermesse anual mais concorrida de Poços. Todo início de maio, ficávamos nós lá, ouvindo “Pombinha Branca”, “Coração de Mãe” e outras menos votadas.
Mesmo depois que vim para São Paulo, toda manhã ia da Vila Maria à USP ouvindo o programa de Moreno e Moreninho na rádio Nove de Julho ou Marconi, não me lembro bem, e gostava muito do Zico e Zeca, de quem conhecia dois ou três clássicos. Gostava também de algumas músicas de Moreno e Moreninho, especialmente as congadas do sul de Minas, e adorava a viola caipira de Cafezal. Mas, no geral, era uma música muito pobre, esganiçada, que não me tocava a alma, mesmo quando interpretada pela mais popular dupla caipira de muitas décadas, Tonico e Tinoco.
Mas Cascatinha e Inhana, nunca ouvi coisa mais bonita. Aliás, até sozinha Inhana era imbatível. Há uns três anos saiu um CD póstumo da dupla, onde Inhana interpreta “Carinhoso”. Daquele período, não houve cantora romântica brasileira de voz mais bonita e de interpretação mais pungente, com exceção de Elizeth Cardoso e, talvez, de Alaide Costa e Nana Caymmi, na geração seguinte.
Pois Pena Branca e Xavantinho me despertavam as mesmas sensações. Ali no “Vitrine”, cantando clássicos de Milton Nascimento, Chico e Caetano, Pena Branca e Xavantinho não eram gente, eram anjos de ébano tecendo loas ao Criador. Xavantinho, aliás, tinha voz gêmea de Milton, o maior intérprete da MPB moderna.
Depois daquele dia, não houve show da dupla que eu não fosse atrás, que nem um fã despudorado. Nem tive pejo de pedir seus autógrafos em um desses shows e ruborizei como uma donzela quando escreveram meu nome, sem me perguntar qual era. Meus ídolos me conheciam! Até hoje minhas filhas mais velhas caçoam dessa demonstração de macaquismo explícito.
Todo mês entrava na Musical Box, ali na praça Vilaboim, e a primeira pergunta era se havia algum lançamento novo da dupla. Não perdi um. Eles formavam a linha de frente da música MPB rural de primeira linha, ao lado de Rolando Boldrin, Renato Teixeira, Sérgio Reis e do gênio Almir Satter.
A morte de Xavantinho foi tão triste quanto a de Inhana, muitos anos atrás. Naquele fim de semana, o som de casa ficou ligado direto nos seus CDs, especialmente em “Chuá Chuá”, de Sá Pereira, a música que me lembra minha mãe.
Lamento apenas que dona Tereza tenha partido antes que a dupla ficasse conhecida. Certamente teria ensinado todo o repertório de Pena Branca e Xavantinho aos seus netos, da mesma maneira que ensinou o de Cascatinha e Inhana aos seus filhos. Ensinaria “Cuitelinho”, recolhida por Vanzolini, “Velho Berrante”, do Adauto Santos, o hino a Mazaroppi, do Garfunkel, as músicas do Milton, Chico e Caetano que, na voz da dupla, perdiam o caráter moderno e ganhavam o tom intemporal, que provém das profundezas do tempo e do Brasil. E repetiria com aquela entonação pungente, o tipo de voz tremida que meu avô Issa usava quando cantava “Velho Realejo” para minha mãe criança, e que compõe o conjunto de valores intangíveis, que caracteriza a raça Brasil.
http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2007/07/22/pena-branca-e-xavantinho
Luis Nassif
Introdutor do jornalismo de serviços e do jornalismo eletrônico no país. Vencedor do Prêmio de Melhor Jornalista de Economia da Imprensa Escrita do site Comunique-se em 2003, 2005 e 2008, em eleição direta da categoria. Prêmio iBest de Melhor Blog de Política em eleição popular e da Academia iBest.
Áudio: http://letras.terra.com.br/pena-branca-e-xavantinho/48101/
Vídeo: YouTube.
quinta-feira, 18 de março de 2010
Gosto de Sol
Milton Nascimento
Composição: Milton Nascimento/Ronaldo Bastos
Alguém que vi de passagem
Numa cidade estrangeira
Lembrou os sonhos que eu tinha
E esqueci sobre a mesa
Como uma pêra se esquece
Dormindo numa fruteira
Como adormece o rio
Sonhando na carne da pêra
O sol na sombra se esquece
Dormindo numa cadeira
Alguém sorriu de passagem
Numa cidade estrangeira
Lembrou o riso que eu tinha
E esqueci entre os dentes
Como uma pêra se esquece
Sonhando numa fruteira
Fonte: http://letras.terra.com.br/milton-nascimento/307376/
Esta canção é originariamente um poema de Carlos Drummond de Andrade e agora motivada
por uma imagem de acontecimento de vida e beleza a um canto da sala de visitas, compartilho-a.
A imagem do áudio é a da memorável capa do Clube da Esquina.
Muito há que se dizer ainda.
Vídeo: YouTube
Assinar:
Postagens (Atom)

