sábado, 10 de abril de 2010

História de um nome

Maria – chamariam Fifia!

Das Dores

Socorro

até Geralda.


Mas não.


O rádio – novidade maior –

trazia notícias distantes:

na voz do presidente do país

e seu quotidiano com nomes

de suas filhas...

E assuntos até de além-mar


– No mundo, por tudo isto, vastíssimo,

acabava a Segunda Guerra Mundial

e sentiam seus efeitos – .


A lenda tantas vezes

recordada conta da escolha

do lindo nome Meire Maria!


“Vai chamar Meire Maria

essa minha fia”! – com brilho

de líquida luz nos olhos.


Mas não. O padre

arrazoou a repetição.


E então decidiu-se

pela onomatopéia ‘le dá’

– para Ieda –

filha do presidente.


Trouxe desde lá

em mim a vontade

recorrente de Sol. E muito dó

da gente sem si.


Imagem: Norma H. Lucas

Poema: Leda Lucas

sábado, 3 de abril de 2010

Marcel Proust - Sobre a Leitura

"Este texto de Marcel Proust, inédito no Brasil, foi publicado em 1905.
Sendo anterior a Em Busca do Tempo Perdido já contém elementos da sua narrativa oferecendo belo elogio da leitura.
Originalmente, foi o Prefácio que Proust escreveu para a tradução do livro Sésame et les Lys de John Ruskin."
(Ernesto Guimarães)

Talvez não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como aqueles que pensamos ter deixado passar sem vivê-los, aqueles que passamos na companhia de um livro preferido. Era como se tudo aquilo que para os outros os transformavam em dias cheios, nós desprezássemos como um obstáculo vulgar a um prazer divino: o convite de um amigo para um jogo exatamente na passagem mais interessante, a abelha ou o raio de sol que nos forçava a erguer os olhos da página ou a mudar de lugar, a merenda que nos obrigavam a levar e que deixávamos de lado intocada sobre o banco, enquanto sobre nossa cabeça o sol empalidecia no céu azul; o jantar que nos fazia voltar para casa e em cujo fim não deixávamos de pensar para, logo em seguida, poder terminar o capítulo interrompido, tudo isso que a leitura nos fazia perceber apenas como inconveniências, ela as gravava, contudo, em nós, com uma lembrança tão doce (muito mais preciosa, vendo agora à distância, do que o que líamos então com tanto amor) que se nos acontece ainda hoje folhearmos esses livros de outrora, já não é senão como simples calendários que guardamos dos dias perdidos, com a esperança de ver refletidas sobre as páginas as habitações e os lagos que não existem mais.
Quem, como eu, não se lembra dessas leituras feitas nas férias, que íamos escondendo sucessivamente em todas aquelas horas do dia que eram suficientemente tranquilas e invioláveis para abrigá-las. De manhã, voltando do parque, quando todos “tinham ido fazer um passeio”, eu me metia na sala de jantar, onde, até a ainda distante hora do almoço, ninguém, senão a velha Félice, relativamente silenciosa, entraria, e onde não teria como companheiros de leitura mais do que os pratos coloridos pendendo nas paredes, o calendário cuja folha da véspera havia sido há pouco arrancada, o pêndulo e o fogo que falam sem pudor que se lhes responda, e cujo suaves propósitos vazios de sentido não substituem – como as palavras dos homens – o sentido das palavras que se lêem. Instalava-me numa cadeira ao pé do fogo de lenha, do qual, durante o almoço, o tio madrugador e jardineiro diria: “Não é ruim”! Suporta-se muito bem um pouco de calor do fogo, posso garantir que às seis horas fazia bastante frio na horta. Antes do almoço quem poria fim, sem pena, à leitura. De tempos em tempos, ouvia-se o barulho da bomba que fazia a água correr e também levantar os olhos e olhá-la através dos vidros fechados da janela, ali, bem perto, na única aleia do jardinzinho que margeava com tijolos e faianças em meias-luas suas platibandas de amores-perfeitos: amores perfeitos colhidos, parece, nesses céus tão bonitos, esses céus versicolores e como que refletidos dos vitrais da igreja que se viam às vezes entre os tetos da vila, céus tristes que apareciam antes das tempestades ou depois, já bastante tarde, quando o dia estava prestes a terminar.
...
Já era meio-dia, fazendo com que meus pais pronunciassem as palavras fatais: “Venha, feche seu livro, vamos almoçar”.

PROUST, Marcel. Sobre a leitura. Tradução de Carlos Vogt. Campinas, SP: Pontes, 1989.
CANÇADO, José Maria. Proust: as intermitências do coração e outros ensaios. Belo Horizonte - Ed. UFMG 2008.

Imagem: Camille Pissarro [Portrait of Rodo Pissarro Reading] 1893.
Texto: Este post faz parte da coluna mensal Ofício de Escrever, assinada por Sueli Aduan.

Mas.
No século XX, em Minas Gerais, uma menina só, contrastando o mundo das memórias do fabuloso escritor francês.
Na horta.
Na cozinha, com um fogão a lenha sempre aceso e um pilão de tronco de madeira, retangular, com um furo fundo no centro; enorme.
Os tijolos, retângulo de terra sopesada a forno, vermelhos.
No terreiro, sempre um cão.
No curral, os bois, vacas e bezerros; depois, mais ao longe e se distanciaaaaannndo, árvores e pássaros e borboletas.
Lá longe, as montanhas e nuvens marcando horizonte.
E ela só; muito.
Choro e promessas.

Os Famosos e os Duendes da Morte

Os Famosos e os Duendes da Morte

Isabela Boscov fala sobre o filme de estreia do paulista Esmir Filho, de 27 anos. O filme conta a história dos moradores de uma cidade que sonham em segredo.
Este vídeo foi postado por Ellen do //ajusteofoco.blogspot.com/ que o enviou-me a mim em nossas conversas por meio virtual.
Amei os comentários de Isabela Boscov e pretendo assistir ao filme que, parece, foge dos roteiros comuns das últimas safras.
Vida longa ao cinema brasileiro.

Imagem: Cena do filme Os famosos e os duendes da morte (in google)
Vídeo: Youtube (veja.com)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Canto atávico





... e tantas vezes, de cócoras e com a palha de milho na orelha e o fumo de corda e canivete entre os dedos das mãos; contava com uma alegria:
– Está quase afinado, meu compadre! Os bois são bons! Eu vou apertar mais um pouco e 'nóis vai ouvir o canto do danado'!
Isto já faz tanto tempo.
Mas, não é que estes dias deu de chegar um som em meus ouvidos que lembrou-me o querido tio João Moreira?!
Sua alegria na espera do canto saído do eixo apertado no giro das rodas do carro de bois, contagia minhas lembranças.

Texto: Leda Lucas
Vídeo: Leda Lucas

quarta-feira, 31 de março de 2010

Encontros


Apenas mais uma tarde de domingo? Talvez.
Um compromisso a mais? São tantos nos todos os dias; apenas mais um.
Mas hoje, já passados alguns dias depois daquela tarde, vejo-me a observar as imagens registradas e nelas tantos gestos.
As cores muitas.
Os semblantes vários.
Os semelhantes no esforço de se fazerem únicos.
A criança faz surgir o desejo de carícias maternas; o adolescente chega e aninha-se na confraternização, e eu penso:
– Como é que ele vê este acontecimento? Nem faz tanto tempo era o dia dele.
No entanto vem crescendo e tenho certeza, também sonha.
Os adultos acarinhando-se com o firme propósito de tornar os acontecimentos uma festa.
Até que, chegada a hora de voltar cada uma para seu canto, sob a chuva fina caindo do céu da cidade, aliam-se, protegem-se.
As companheiras de nossa maior viagem.


Imagem: Leda Lucas
Crônica: Leda Lucas
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domingo, 28 de março de 2010

Territórios de ser

o homem só
com tudo

Imagem: Leda Lucas
Poema: Leda Lucas

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quinta-feira, 25 de março de 2010

CUIDADO DEGRAU


Quando criança, eu costumava pensar em uma escada enorme que me levava até o céu, e ela subia... Subia pelas montanhas de minha terra apoiada em nuvens leves; e diáfana.
Quando eu lá chegava, sentado confortavelmente numa poltrona branca guardando a entrada de um grande portal um ancião de barbas e cabelos muito brancos, com um sorriso na face, que achava que era São Pedro. Tinha um molho de chave na mão esquerda. Depois, encontrava-me com Deus, com um rosto severo, sereno. Anjos passeavam pelo jardim de algodão cor-de-rosa a tocar harpas; infinitas.
Cresci.
Trilhei alguns caminhos.
... Agora tudo é sólido; concreto.
Mas a alma leve e transparente ainda busca alturas a fim de alcançar cores, formas, linhas, palavras.
Tudo expressão.
E eu subo, atenta e cuidadosa, cada um dos tantos degraus - um após o outro - a cada dia, e sempre levando comigo um livro, uma câmera fotográfica (digital).
Vai saber...
Acho que viver é esquisito e sinto saudades.

Azul da Infância


O olhar infantil procurava alturas

a ver o alto da escada invisível

apoiada nos tufos brancos

da nuvem alta


Queria pela escada

entrar no céu

ser recebida em caloroso

silêncio e bondade


Os degraus da escada

subiam subiam subiam

sumiam


E, então, o frio do pântano

do brejo de água de mina

na planta dos pés

assoalhava o devaneio

no azul da infância



Imagem: Leda Lucas
Textos: Leda Lucas
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