sábado, 29 de outubro de 2011

No meio do caminho


"De distâncias levadas a cabo, de ressentimentos infiéis,
de hereditárias esperanças misturadas com sombra,
de assistências dilaceradamente doces
e dias de veio transparente e estátuta floral,
o que subsiste no meu vocabulário escasso, no meu frágil produto?"
(Pablo Neruda, Diurno doído)

Imagem: Leda Lucas
@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@
Posted by Picasa

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Vestígios dos dias

"Me pergunto como pude sucumbir nesta vertigem que eu mesmo provocava e temia. Flutuava entre nuvens erráticas e falava sozinho diante do espelho com a vã ilusão de averiguar quem sou. Era tal meu desvario, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor."


(Trecho de Memória de Minhas Putas Tristes, p. 75.)
Gabriel García Marquéz
Imagem: Leda Lucas
@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@
Posted by Picasa

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Trecho do filme sul-coreano "Poesia" de Lee Chang-Dong


Enviado por em 18/11/2010

POESIA (Shi), Lee Chang-Dong
Coréia do Sul - 2010
------------------------------------------
Mais informações:
http://www.jc.com.br


Para relembrar um momento sensível de viver a poesia, na tela de cinema, em 2011.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

domingo, 16 de outubro de 2011

Os poetas

Os poetas só acendem lamparinas,
Eles próprios se apagam
Estimulando os pavios.
Se a luz vital,
Inerir como sóis,
Cada era será uma lente,
Disseminando sua
Circunferência.

Poema de Emily Dickinson, a partir de transcriação de Kevin M. B. Mundy, em um manuscrito de Rubens Matuck.
O poema foi copiado pelo artista para ofertá-lo a Audrey, pessoa amiga-doce.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@
Posted by Picasa

sábado, 15 de outubro de 2011

Discurso do Prof. Dr. Antonio Candido


Para nunca me esquecer deste Dia do Professor.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

domingo, 9 de outubro de 2011

Materiais da vida

Menino

Trouxe um menino.
Apanhei-o no bazar de ouro e prata,
onde as joias são como as folhas das mangueiras:
milhares, milhares.

Tudo ensurdecia: pulseiras, campainhas,
brincos e pingentes,
argolas para os tornozelos, correntes com guizos,
enfeites para tranças, corações com pedra sangrenta,
diamantes para a narina.

Mas eu só trouxe a criança.

Apanhei-a entre os carrinhos de comida,
grãos dourados, gomos de cana,
bolinhos fumegantes,
frutos de toda casta,
biscoitos de pistache e rosa,
açúcar em nuvens de algodão.

Trouxe o menino.
Apanhei-o entre mulheres morenas, lânguidas,
sonâmbulas.
Entre velhos de barbas imensas, que recitam versículos.
Entre mercadores distraídos, de cócoras,
que fazem subir e descer douradas balanças.

Montes verdes, azuis, vermelhos: condimentos, colírio,
e óleo de gulab, rosa, rosa,
para as tranças de seda negra.

Trouxe o meninozinho:
tem um sinal de carvão na testa
e furos nas orelhas
para muitos talismãs;
não ouvirá canto de sereia, nem sedução de demônio:
calúnia, mentira, lisonja,
ofensa ou engano das palavras humanas.

Trouxe o meninozinho – mas só na memória.
Menino que vai ser surdo, tão surdo
que jamais saberá deste meu amor.

As palavras rolarão sobre a sua alma
como pérola em veludo, sem qualquer som.

Trouxe o meninozinho nas minhas pálpebras:
um menino oriental, ainda de colo,
com olhos negros circundados de colírio,
um menino que adormece com tinidos de pingentes de prata,
balanços de camelo.
Muito pobre, muito sujinho, de muito longe,
ainda do mundo dos anjos do Oriente:
enrolado em si mesmo,
pensativa crisálida
na confusão do bazar.

Cecília Meireles. In: Doze Noturnos da Holanda e Outros Poemas. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1986, 3ª ed., pags. 110 a 112.

Imagem: Leda Lucas

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@
Posted by Picasa

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A espera

Multidão


Mais que as ondas do largo oceano

e que as nuvens nos altos ventos,

corre a multidão.


Mais que o fogo em floresta seca,

luminosos, flutuantes, desfrisados vestidos

resvalam sucessivos,

entre as pregas, os laços, as pontas soltas

dos embaralhados turbantes.


Aonde vão esses passos pressurosos, Bhai?

A que encontro? a que chamado?

em que lugar? por que motivo?


Bhai, nós que parecemos parados,

por acaso estaremos também,

sem o sentirmos,

correndo, correndo assim, Bhai, para tão longe,

sem querermos, sem sabermos para onde,

como água, nuvem, fogo?


Bhai, quem nos espera, quem nos receberá,

quem tem pena de nós,

cegos, absurdos, erráticos,

a desabarmos pelas muralhas do tempo?


(Cecília Meireles)

In: Poesia Brasileira – Doze Noturnos de Holanda e outros poemas. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986, ps. 75 e 76.


Imagem: Leda Lucas
@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@
Posted by Picasa